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Friday, October 26, 2018

Words in Poems: Helder Moura Pereira (II)



Quebram na janela exposta folhas vivas
e três ou quatro ouriços de castanheiros.
O mundo desenrola-se sobre a azinhaga
que conduz a umas casas vagas, cascas
de nozes, barcos na poça de água, o silêncio
de inexistentes crianças, apenas os nossos nomes
musicais se assemelham, nuns gritos,
ao bulício que podia fazer disto uma terra
viva. Partes pedra. Amarela e riscada
de linhas prateadas, paralelas, mais perto
da rocha que do pó, pedra de delimitar
caminhos, pedra forte. Já te mostrei este poema
e a tarde foi-se, hei-de um dia esperar por ti
como quem espera pelas palavras, ou seja,
sem esperar delas absolutamente nada.

Saturday, August 4, 2018

Words in Poems: Helder Moura Pereira



Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava 
o que ia ficando nas pausas entre cada 
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas, 
faz de conta que não sei as coisas que não queres 
que saiba, acabei por te pensar com crianças 
à volta. Agora há prédios onde havia 
laranjeiras e romãs no chão e as palavras 
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua 
que foi comum, o quarto estreito. Um livro 
é suficiente neste passeio. Quando não escreves 
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio 
é maior. Decerto te digo o que penso 
baixando a cabeça e tu respondes sempre 
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso 
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria 
prender-te, tornar a perder-te, achar-te 
assim por acaso no meu dia livre a meio 
da semana. Mantêm-se as causas iguais 
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina 
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono 
custa. Porque estou contigo e me deixas 
a tua imagem passa pelas noites sem sono, 
está aqui a cadeira em que te sentaste 
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te 
vida menos igual, outras iguais obrigações. 
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal. 

Sunday, July 22, 2018

The Heart in Poems


Anónimo
(Egito, 1567 a.e.c-1085a.e.c.)

Tu, minha és, meu amor,
O meu coração esforça-se para alcançar o cimo do teu amor.
Vê, encanto, a armadilha que montei com as minhas
Próprias mãos.

Vê os pássaros de Punt,
Perfume de asas
Como cuva de mirra
Caindo sobre o Egito.

Vamos ver o trabalho que as minhas mãos fizeram, 
Vamos os dois, juntos por esses campos.

[Tradução de Helder Moura Pereira]