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Friday, August 17, 2018

Letters in Poems: Nuno Júdice (V)




AO CAIR DA NOITE

No banco do jardim, como numa sala de espera, 
pergunta se alguém virá para a buscar, antes
que a noite chegue. E eu, do outro lado do tempo,
abro o caderno para lhe escrever: "Um dia
saberás o que disseram todas as cartas
que não abriste; e perante o vazio a que
a tua vida se resume, responderás que
pouco importa o tempo, quando a eternidade
te cobriu com a sua noite, há muito".
Depois, vou ao correio. "Esqueceu-se
de pôr a morada", diz-me o empregado.
"Não sei onde mora", digo-lhe.
E meto na casa o envelope em branco
para que alguém, um dia, o descubra
para o ler, num banco de jardim,
pouco antes da noite, pensando
no que é a vida em que todo o futuro foi
esse instante que não chegou a ser.

Sunday, July 15, 2018

Words in Poems: Nuno Júdice (IV)



CURSO DE RETÓRICA

Entra pelo portão da sintaxe, e atravessa
o bosque da gramática con as mãos do verbo,
rasgando o caminho que te irá conduzir à última
frase. Depois, recomeça tudo, embora o portão
esteja aberto, e não precises já de o empurrar
para descobrir um chão de pontos e de vírgulas,
fazendo ressoar os teus passos numa abóbada
de sinónimos. Apanha as palavras caídas, e
leva-as para o fundo do dicionário, onde
as irás juntar a um adubo de sílabas. Vê-las-ás
germinar na primavera do verso, e colherás
as suas flores no jardim da retórica, entre
estátuas de deuses e cascatas. Depois, regressa
à página de onde saíste, e fecha o portão. 

Saturday, June 16, 2018

Hands in Poems: Nuno Júdice (III)



FLASHBACK

 Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.

Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tu mão ao encontro da 
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.

Sunday, May 20, 2018

Hands in Poems: Nuno Júdice (II)



AUSÊNCIA

 Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma: mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais -um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e 
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de istantes,
 quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

Sunday, April 15, 2018

Words in Poems: Nuno Júdice



O AMOR, DIZES-ME

Escuto o silêncio das palabras. O seu silêncio
suspenso dos gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as 
palavras são seu próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se 
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso deste sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confesa, traducido em 
breves palavras a sua silenciosa verdade.